quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Luz

- Analice Alves

És a luz que me envolve
Quando à noite, meio de lado
Durmo com os sustos que levei
Quando menina

Acredite, meu amor
O pôr-do-sol não tem luz
E nem graça sem a dor
Mude-me a impressão que
Tenho da vida
Meu mundo não mais gira

E a buzina que tocávamos
Em dó maior
Fez-se surda e muda
Isso dói
Feito ferida grave coberta por água salgada
Abrir os olhos e ver que sofri
Por quem não me encantaram aos olhos
Diga-me: qual é a função do meu coração
Quando, feito trem partido no trilho, esquece
A outra metade e se faz egoísmo?

E a voz não é mais canto, é grito
O suspiro é evidente quando, às 4 da tarde
Inibo meus planos e procuro-te feito cego
Em terras escuras e mago em ocasiões reais

És a luz que me envolve
Quando à noite, meio perdida
Acordo sobressaltada e, sem saber
O que quero da vida,
Vou e volto sem ficar parada

25.11.09

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Não sei eu

- Analice Alves

De tanto amá-lo
Chamo-te eu
Confundo-te com tantos
Que dentro de mim habitam
E já não sei quem sou
E o que sinto
Não sei se o amor é meu
Ou se é teu por mim
Ou se é uma organização
De toda essa população
Que mora por aqui

Habitam bairros, cidades
Estados desorganizados
Confundem seus prefeitos
E se envolvem na corrupção habitual

De tanto amá-lo
Chamo-te eu
Com ou sem aspas
És quem sou e sou
Aqueles que guardo

Cabide de personagens diversos
Atores que sentem e vivem
E nem sempre ganham o papel
De tanto amá-lo
Perco-me num carrossel
De brinquedo
Não tenho medo do múltiplo

Não sinta rancor, raiva
Ou ciúme incalculável
Os que moram em mim
Também te amam
São eles que multiplicam
Esse tal sentimento

Amor, dentro de mim
Há mais do que nós
Dentro de mim mora gente
Alguns são íntimos vizinhos
Outros meros indigentes.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Sem saber

- Analice Alves

Vejo o amor de lado a orar por mim
Ele, de fato, é uma busca interminável
Estou certa de que morrerei sem saber
Quem és, por que falas, por onde andas

O mel que em meus lábios já pusera
Desfez-se em açúcar puro e barato
Encontrado de modo fácil em mercearias
De esquinas vazias, nos subúrbios.

O amor que vivemos sugou-me o sangue
Azedou o leite que ainda não produzo
Fez-me mãe e pai de um sentimento sem filhos
Ponteiro aos pulos

És o vândalo de meu mundo perdido
Meu corpo – ali deitado – após o coito
Nada mais é do que um crime
- sem castigo

Lembro quando dizias:
“Ali, no meio da multidão,
tão linda, eu te via e percebia
que se não fosses minha, mesmo
assim a desejaria”.

E eu morri por dentro e por fora
Como borboleta sem asas e insetos de verão
Cujas asas perdem-se por debaixo dos móveis
E resta apenas a madeira como alimento
E a lâmpada no teto como ilusão
- imóvel.

O amor, meio de lado, orando por mim
Tenho certeza de que sorri com olhos de pena
E a liberdade me grita do lado oposto da cama
Onde sonho contigo e com ela, sem saber

Ele, de fato, não existe no meu mundo particular
Enquanto estás tu a observar o meu sorriso
Há outros a procurar o triangular que escondo
Por baixo do vestido
- és raro

Tu és o tamanho compacto daquilo tudo que sinto
E que, de tão grande, não cabe em minha palma
- na alma
Se isso não é amor, de fato, não sei mais meu nome
Estarei certa de que morrerei sem saber, como indigente
Por que andas, quem és, de onde falas
Não me atendes...

[Analice Alves, 22.10.09]

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Paisagem

- Analice Alves

Amor, quero que as luzes escuras
Do meu coração suburbano
Ganhem força diante do sonho
Ainda não sonhado

O amor me aparece em pesadelo
Resignado em meu sorriso torto
A batalhar por alegrias sem medos
E moldar a vida feito cavaleiro mouro

Estamos nós a separar-nos
Como geada e fogo
Eu em minha pequenez
A entregar-me ao teu corpo
E fazer-me cada vez mais miúda
E imatura na completude
Do que é pouco.

Ergues-me no ar e roda-me
Como carrossel de brinquedo
Quebra-me em tuas mãos
Faço-me pura alma e coração
- sem esqueleto.

Estás aqui, onde a vida esqueceu
De construir janela ou porta
E sem poder fugir, encaro teus olhos
E volto a vida, depois de estar morta

Quero que as luzes apagadas
Do meu coração suburbano
Sigam tuas sombras e ceguem teus olhos
Para que as verdades sejam escondidas
E para que as paisagens sejam pinturas a óleo.

Estamos nós a separar-nos
Como dedos de mãos opostas
Que se entrelaçam na oração
De todo sempre
E ao tocar as tuas
Dão-se de bruços e viram-me as costas
Para servir-te de frente.

[Analice Alves, 18.10.09]

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Trem das noites

- Analice Alves

Meu corpo sem o teu
Em eterno desajuste
Vaza de tormento
A todo o momento
E em amiúde

Vai se quebrando
Tão frágil e pequeno
Feito trilhos de um trem
- de brinquedo
aquarelado num desenho

Estás às margens de meus olhos
Onde as lágrimas jorram amores vãos
Dores passadas

Vou me quebrando aos poucos
Não sobrevive este corpo fraco e miúdo
E sem saber se vale a pena
Entrego-te meu dorso
Para não te dar todo o meu tudo.


[Analice Alves, 03.10.09]

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Ficções

- Analice Alves

"Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que achava nos livros”
(Miguel de Cervantes em Dom Quixote)


Meu amor, desculpe por todo esse transe
Mas passei a vida toda a me agarrar nos sonhos
E acabei me perdendo dentro dos romances
Cá estou a perguntar quem sou, de onde vim
E se o amor era sentimento ou matéria prima pra mim

Lia cada verso e cada estrofe
Na tentativa cruel de me inserir naquela
Menina que amava sem stop
E vi que não era eu quando, ao chorar uma lágrima,
Perguntei-me o porquê se ela não sofre

Dei o braço à Dom Quixote e lutei contra os moinhos de vento
E, como Luiza, encantei-me com os livros e perdi o chão
Vi-me a arrancar os cabelos feito tricotilomaníaca
A confundir a vida real com novelas de cavalaria
A tentar encontrar os motivos pra tanto excesso de ilusão

Seria aquela menina arredia o meu alter-ego
Ou apenas um eu deixando de ser lírico para
Ser completo? Seria o escrito o meu lugar de origem
Ou destino e desculpa para equilibrar a vertigem?

Meu amor, desculpe por toda essa loucura
Mas sou frágil, fraca de forças
E sou mais personagem do que literatura
Voltei ao real quando olhei pra ti e o coração
- que pena – não bateu acelerado. Olhei teus
olhos e estes eram mais vivos em meu poema
do que no alto palco do meu real cenário.


[Analice Alves, 26.09.09]

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

My boy

- Analice Alves

My boy, open this door
Let me enter in you heart
I just want to know
What you do when I’m not around

It’s cold in this afternoon
I confess I miss your kiss
I wanna stay with you in your room
With your books and your advices

I’m lost in the world
Without your love
I’m just a girl who is in trouble
I’m just a fish without sea.
I’m sun
Sun without sky

My boy, open this door
Let me enter in your house
I just want to know
What you do when I’m not around

Tell me when you will open your eyes
I just wanna know what is going on
And let me enter in your mind
Why life is better when I not alone

Call my name
Tell me the truth
I know you are not the same
But I love you

My boy, open your arms
Let me enter in your heart
I just want to know
If our love passed away
Or is still alive

30/06/09

p.s.: é uma música em parceria com Tom Siqueira.